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Artistas de rua mostram o outro lado da informação

Por Nicolle Manduré e Mariana Azevedo

Engana-se quem pensa que a informação só vem através de jornais, da internet e das televisões. Cantos, pinturas e esculturas também trazem, de uma forma alternativa, o que a tradicional mídia não aborda. Como define Capelari, a mídia alternativa “aborda temas não privilegiados pelos meios conhecidos e pode ser feita com o propósito de ser uma relação com o outro”.

É exatamente isso que Dimas Camargo e Carlos Machado trabalham. Ambos os artistas de ruas, situados na Praça da Alfândega, em Porto Alegre, buscam estabelecer uma relação com os passeantes do local através das suas telas coloridas que se contrastam com o asfalto acinzentado. Eles, que procuram maneiras alternativas de trazer informação à população, são responsáveis por encantar os pedestres com suas obras de arte.

A barba branca e as rugas no rosto não disfarçam os 71 anos de uma vida bem vivida. Dimas Camargo, um dos pintores mais populares da Praça da Alfândega, trabalha com a arte há 40 anos. “Não sei se foi casualidade, mas eu vi a coisa certa na hora certa”, conta ele ao se referir como começou a pintar. “Foi em 1969 quando vi uma tela pela primeira vez na vida. Aquilo me impressionou e fez com que eu voltasse a todo instante para rever a pintura”, continua. Sobre a inspiração dos seus quadros, Seu Dimas é direto. “Talvez eu já tenha nascido inspirado, mas fui descobrir isso aos 26 anos”, revela.

Dimas Camargo expõe seu trabalho há 20 anos na Praça da Alfândega/Foto: Mariana Azevedo


Viver de arte, atualmente, é um desafio a ser enfrentado. Com quatro décadas de experiência, sendo duas delas vividas no centro da capital gaúcha, Camargo conta que nem todos respeitam a forma como ele escolheu de transmitir informação. “As pessoas não valorizam a arte, porque, primeiro, o povo não tem dinheiro, e segundo, a cultura no Brasil é pouca”, desabafa. Quanto à importância do artista de rua na sociedade, o pintor critica a atuação do Estado. “O artista de rua é marginalizado no país, e isso não é culpa da população. Pois muitos até gostariam de comprar os quadros, mas ainda falta dinheiro”, fazendo referência a crise econômica. “Faz três semanas que eu não vendo o meu trabalho. Isso faz com que eu tenha que pedir dinheiro emprestado para a minha filha, porque não temos apoio nem do governo, nem da cultura”, admite. “O Estado não tem relação nenhuma com os artistas de rua. Se chover, tenho que pegar as minhas coisas e ir embora para a casa”, relata.

De acordo com Seu Dimas, a mídia tradicional, àquela que divulga as informações na contramão da imprensa alternativa, também pouco dá valor aos artistas de rua. “Quando a mídia vem fazer uma matéria conosco, normalmente é para ocupar uma hora vazia”, acredita.

 Porém, nem os percalços e os conflitos que existem no caminho, faz com que Dimas Camargo abandone os pincéis. “Se eu fizesse outra coisa, não estaria fazendo o que eu gosto. Eu, definitivamente, não gostaria de estar fazendo mais nada além do que já faço”, conta com brilhos nos olhos. “Essa é a profissão que eu escolhi e eu só vou parar quando eu morrer. Espero que demore bastante.” Finaliza. Seu Dimas trabalha diariamente, mas aproveita para caprichar nas telas nos finais de semana, feriados e, claro, em dias chuvosos.

Mas não foi só de arte que Dimas se sustentou. Até os 26 anos, ao invés dos pincéis, o artista manuseava os bondes da capital. Durante algum tempo, ele foi motorneiro de bonde, e foi por lá que ele conheceu a Santina, com quem está casado há 49 anos e tem dois filhos, o André, de 33, e a Janaina, de 42.

Os quadros de Dimas Camargo são característicos. Ele pinta casarios antigos e representações das tradições gaúchas. Nas casas, ele busca inspiração pelos arredores da praça em que expõe seu trabalho.
    
Já Carlos Roberto Machado está há mais de 10 anos na praça. Conhecido como Carlos Machado, também disputa um cantinho na praça da Alfandega para vender a sua arte. Seu Carlos conta que não vê seus colegas como concorrentes e sim como amigos. Por ter uma arte diferenciada e abordar diferentes temas, “muitos acabam me encarando como um concorrente, pois veem  eu vender”, afirma o artista.

Obras de Carlos Machado pelo centro da capital gaúcha/foto: Mariana Azevedo

O pintor conta que já foi mais fácil vender as suas obras. Há muitas pessoas que valorizam a arte  mas o problema acaba sendo a situação em  que o país se encontra.  Carlos Machado conta “tenho que suar para me manter com as telas, num Brasil que dizem não ter arte”, e conclui “hoje não é inspiração e sim transpiração”.  O artista vende em média 125 obras por ano, a maioria por encomenda. Suas pinturas têm como tema principal a vida rural de Bagé, a cidade onde nasceu.  

O que leva seu Carlos a ir todos os dias na praça é a necessidade. “Eu preciso vender, eu vivo dessa arte”, relata Carlos.  O pintor conta que o seu trabalho fez com que ele aprendesse  a apreciar diferentes temas, como por exemplo a imagem de São Jorge. “Eu não sou devoto, mas como muitos admiradores do meu trabalho solicitam a encomenda da imagem do santo, eu aprendi a gostar dele, pois é ele quem paga as minhas contas“, conclui.

Assim como Carlos Machado e Dimas Camargo, no Rio Grande do Sul, existem mais de 2000 artistas de rua que lutam diariamente pela valorização do seu trabalho. Os dados são do portal artistasgauchos.com.br.

O que move a vida desses pintores, além da necessidade, é a paixão pela arte e pela informação. “A alegria e o prazer que recebes em pintar, te paga pelo todo sofrimento que recebeste na vida. A pintura faz a minha felicidade”, finaliza Seu Carlos.




  






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