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Periferia em Movimento: um outro olhar sobre periferia

Por Marthin Manzur e Vinícios Sparremberger

Três estudantes de jornalismo, um trabalho de conclusão de curso e a vontade de mostrar as diferentes faces da realidade da qual fazem parte: a periferia. Assim são os primeiros passos do coletivo Periferia em Movimento de São Paulo, que nasceu em 2009 dentro de uma sala de aula, mas que com o tempo invadiu por completo a vida de seus idealizadores. Como um meio alternativo à mídia convencional, o coletivo produz conteúdo sobre, para e a partir das periferias com uma perspectiva que prioriza o contexto onde está inserido.

O jornalista Thiago Borges, um dos idealizadores do Periferia em Movimento, explicou que o projeto nasceu a partir da percepção em comum com as colegas Aline Rodrigues e Sueli Carneiro acerca da narrativa limitada, geralmente negativa e superficial, apresentada pela mídia convencional sobre a realidade dos bairros periféricos. “Enquanto moradores de periferia e, na época, estudantes de jornalismo, nos incomodava o modo como os nossos locais de origem eram retratados pela mídia e como que isso impactava negativamente a comunidade”, salientou.
 
Nessa perspectiva, Benevenuto explica que é característico da comunicação alternativa abordar temas não privilegiados pelos meios conhecidos e, por isso, normalmente, ocorrem fora dos ambientes tradicionais da produção midiática. Assim, surge a proposta de produzir o documentário “Grajaú na Construção da Paz”, que aborda o movimento social desenvolvido no distrito de Grajaú, localizado no extremo sul da cidade de São Paulo. “A ideia foi mostrar a periferia além da violência e que existem muitas iniciativas interessantes dos moradores, que estão tão ali suprindo necessidades que deveriam ser atendidas pelo Estado”, enfatizou. O documentário busca destacar o impacto que o movimento “Evento pela Paz no Grajaú” tem para o local. Na ocasião, a ação completava dez anos de atividades.

O projeto acadêmico ainda contemplou o blog do Periferia, criado para a postagem dos bastidores do projeto e informações coletadas durante as gravações. Com essa plataforma, a comunidade passou a acompanhar o trabalho, que gradativamente ganhou novas perspectivas. “A comunidade sentia uma necessidade de ter as informações locais. Quando percebemos, a demanda já havia se tornado maior do que imaginávamos. As pessoas, voluntariamente, começaram a mandar pautas, pedindo para divulgar eventos e atividades culturais”, contou Thiago.
 
Inicialmente, o grupo nunca almejou dar continuidade ao trabalho. “A verdade é que pretendíamos nós formar e continuar atravessando a cidade até o centro para poder exercer a profissão”, disse. Contudo, a aproximação com a comunidade fez com que, em 2010, os recém-formados pensassem em uma forma de retribuir todo o incentivo e apoio recebido durante a gravação do documentário. A aposta foi inscrever um projeto em um edital de Valorização de Iniciativas Culturais (VAI) da prefeitura de São Paulo.

Com a proposta de realizar um ciclo de debates, o Periferia em Movimento, a partir da conquista de recursos, conseguiu colocar em pauta assuntos que pudessem elucidar questões cotidianas da comunidade. “Os encontros reuniram artistas, militantes e moradores locais com objetivo de debater temas da região: da discriminação à moradia e a educação”, lembrou Thiago. O jornalista reforçou ainda que esses encontros foram fundamentais para que ele pudesse enxergar o quanto o trabalho do Periferia em Movimento era importante e tinha potencial para continuar e efetivamente trazer mudanças para aquela realidade. No ano seguinte, novamente com o apoio do VAI, o coletivo desenvolveu e executou o projeto OCA – Oficina de Cinema Amador – com objetivo de estimular o olhar crítico para a mídia e ampliar o acesso às técnicas de produção de conteúdo pelo público.

Em 2012, o coletivo ganhou ainda mais força. Thiago e Aline decidiram deixar seus empregos fixos e tornaram-se freelances e, assim, dedicaram maior atenção ao Periferia em Movimento. “Nossa vida consistia em atravessar a cidade diariamente, ficar três a quatro horas no trânsito e ver a cidade pela janela do ônibus ou do trem”, desabafou Thiago. Desde então, o coletivo tornou-se prioridade. A nova fase permitiu que em março de 2015 houvesse a mudança do blog para o site. “Essa migração foi algo que surgiu com o amadurecimento das nossas prioridades, com a decisão de profissionalizar o Periferia”, destacou o jornalista.

A trajetória do coletivo também conta com a colaboração de outros profissionais. A jornalista Ana Paula Fonseca conheceu o projeto por meio de um dos seus fundadores e encontrou um desejo antigo. “Eu morei no Grajaú desde criança e queria contribuir positivamente para o bairro de alguma forma. O Periferia me proporcionou isso”, contou. Depois de algumas participações, ela foi convidada a integrar a equipe e participar efetivamente do Periferia. O emprego em uma assessoria de comunicação, no entanto, exigiu que ela reduzisse sua contribuição. Hoje, ela participa esporadicamente.

Ana Paula destaca a dedicação e o compromisso que os fundadores têm com o Periferia em Movimento. “Cada vez mais eu me surpreendo com o trabalho desempenhado pelo Thiago e pela Aline. São jornalistas admiráveis, que com determinação e com muito conhecimento sobre a causa, conquistaram um espaço único”, destaca Ana Paula.

Atualmente, o coletivo atem-se a produção e publicação de entrevistas e reportagens com moradores, militantes de movimentos sociais e fazedores da cultura, além da cobertura de atividades socioculturais, a participação de fóruns locais e debates sobre direitos humanos. “A gente não fala, hoje, especificamente de movimentos sociais ou coletivos de cultura, a gente fala de quem está na frente da luta por garantia de direitos humanos nas periferias. Esse é o nosso foco”, salientou Thiago.

O Periferia em Movimento, que nasceu a partir de um projeto acadêmico tornou-se verdadeiramente um espaço onde a comunidade se vê representada. Para Ana Paula, o coletivo estabeleceu algo que poucos conseguem: uma relação de identidade com a comunidade. “O projeto, além de levar sua mensagem à periferia por meio das oficinas, cursos e ações, desperta outro olhar sobre nós mesmos, sem perpetuar o discurso de vitimização que a grande mídia estabelece”, elucidou a jornalista. 


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