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Uma voz em busca da igualdade

Por Eric Raupp e Thamara Riter

O ano era 1980 quando mais de cem famílias ocuparam uma fazenda em Ronda Alta, no norte do Rio Grande do Sul, e permaneceram acampadas por três anos em armações de bambu. Refugiados no campo após o golpe militar de 1964 - que reprimiu sistematicamente projetos para o campesinato, percebidos como comunistas -, se opuseram às tentativas de deslocamento para o norte do Brasil. A resistência teve como consequência a desapropriação de terra e foi nela que começou a circular, em maio de 1981, o Boletim de Solidariedade às Famílias Sem Terra, que mais tarde se transformaria no Jornal Sem Terra.

João Batista Figueiredo era o presidente do Brasil na época e enviou um de seus quadros de maior confiança para conter a mobilização. As tropas do governo fecharam as extremidade do local, impedindo a circulação dos indivíduos, que ficaram rendidos sob cerco. Maria Izabel Grein era umas das mulheres que batalhavam pela distribuição de terras. Ela afirma que o principal objetivo do Boletim era informar os outros membros do movimento sobre a situação em que viviam no acampamento. “A gente mandava bilhetes para Porto Alegre e o pessoal de lá escrevia o que estava acontecendo fora do acampamento”, recorda.

A primeira edição trazia na capa a Carta dos Colonos Acampados em Ronda Alta. Camilo Alvarez é o responsável pela Memória MST, espaço que busca preservar a identidade e disponibilizar documentos e imagens que recontam a trajetória de luta do Movimento. Ele elucida que o periódico foi inaugurado no mês de maio, mas agosto foi o adotado para comemorar o aniversário da publicação. “Foi em agosto que os sem terra derrotaram o tenente-coronel Sebastião de Moura, o coronel Curió, designado pelo governo militar para desarticular o acampamento. Ele chegou em julho no acampamento e deixou o local em agosto, com os sem terra cada vez mais organizados e dispostos a continuar lutando. Foi a partir dessa vitória que o boletim se firmou”, recorda o historiador.

O Boletim foi inicialmente produzido em Porto Alegre pelo Movimento de Justiça e Direitos Humanos e Comissão Pastoral da Terra do Rio Grande do Sul e tinha como nome “Sem Terra – Boletim Informativo da Campanha de Solidariedade aos Agricultores Sem Terra”. “Nos três primeiros anos de circulação, não possuía periodicidade fixa, era algo bastante artesanal, e com tiragem de aproximadamente 700 exemplares”, explica Miguel Stedile, que trabalha no veículo. Contribuem na produção de conteúdo os integrantes dos Setores de Comunicação dos Estados e da Secretaria Nacional e os “companheiros” que apoiam a luta pela Reforma Agrária.

O veículo representa uma forma alternativa de abordar o Movimento Sem Terra, marginalizado e estereotipado pela mídia tradicional. Segundo Peruzzo, publicações como o Jornal Sem Terra “representam uma contracomunicação, elaborada no âmbito dos movimentos populares e das ‘comunidades’, e que visam exercitar a liberdade de expressão, oferecer conteúdos diferenciados, servir de instrumento de conscientização e, assim, democratizar a informação e o acesso da população aos meios de comunicação, de modo a contribuir para a transformação social”.

Ao longo de sua trajetória, o jornal carrega a história da luta por terras. Camilo destaca a edição número 33, de novembro de 1983, como especial. “Essa edição é considerada histórica. Nela, foi noticiada a vitória das famílias acampadas em Ronda Alta e acompanha uma entrevista com o coronel Curió”, explica. A decisão do Boletim de se transformar no informativo oficial do Movimento na região Sul foi tomada em julho de 1982, durante o Encontro da Regional Sul dos Sem Terra. Mas foi somente em 1984, que isso aconteceu.

“Passamos a pautar, a partir da nossa publicação, a necessidade de transformações profundas na sociedade como um todo. Por isso defendemos a realização de uma reforma agrária que dê espaço para a agricultura familiar e a agroecologia, uma transformação mais profunda que a simples distribuição da terra”, afirma Camilo. Passou, então, a ser editado com 12 páginas em formato tabloide, e tiragem de 10 mil exemplares por mês. Em 2007, foi inaugurado um encarte especial, o Sem Terrinha, após o final do 5º Congresso Nacional do MST.

Capa do jornal Sem Terrinha/ Foto: Reprodução

Atualmente o informativo está em sua edição números 326 e é diagramado pela equipe de 18 jornalistas, espalhados por diferentes estados do Brasil. Com ligação direta à direção do Movimento, é sustentado com autonomia financeira e política: um serviço de assinatura é oferecido de forma anual por R$ 30,00 e bianual por R$ 55,00. “Devido às dificuldades não temos conseguido manter sempre a periodicidade mensal e a tiragem”, lamenta. A distribuição é feita na militância do grupo e em entidades simpatizantes à causa, como igrejas, sindicatos, partidos políticos, movimentos populares, universidades e artistas.

Benevenuto Jr. enfatiza que “é uma comunicação que quer se colocar como vetor de desenvolvimento nos vários sentidos da vida social, se apresentando como essencial para a construção da consciência de cidadania”. E é justamente isso que o periódico se propõe a fazer: ser uma ferramenta de transformação do status quo.

“Em nossas páginas, tratamos de questões e opiniões a nível nacional sobre política, cultura, questão agrária, lutas urbanas de diferentes formas: artigos de militantes ou de intelectuais, entrevistas, matérias. Abordamos também de questões internacionais, dando cobertura à luta dos povos do mundo”, explica Camilo. No âmbito da cultura tem espaço para a memória dos lutadores do povo e literatura, além de informar sobre eventos culturais, homenagens e poemas. Há, também, um editorial que expõe a análise de conjuntura a partir da opinião da Direção Nacional do MST.

O Jornal Sem Terra trabalho recebeu, em 1986, o prêmio Vladimir Herzog, como forma de reconhecimento de sua relevância na promoção dos direitos humanos e da justiça social. “É mais um instrumento para avançar na conquista da Reforma Agrária e na construção da sociedade justa, solidária e igualitária. É tão importante quanto as nossas mobilizações, ocupações, manifestações. Pretendemos atender a duas necessidades: divulgar à sociedade as lutas, avanços e conquistas dos trabalhadores rurais e levar ao conhecimento dos sem terra as lutas que ocorrem em todo o país”, enfatiza o historiador.

A última capa da publicação. Apesar de ter periodicidade mensal, organização sofre com a falta de verbas para produzir o informativo/ Foto: Reprodução.

O periódico tem como objetivo organizar e orientar o Movimento, cuja dimensão é nacional - está difusa em 23 Estados do país. “O JST é usado como mais um meio para que as informações sejam passadas para todos. Com isso, tanto o acampado do interior da Bahia como o do interior do Rio Grande do Sul sabem sobre a organização, os avanços, as lutas e nossas conquistas”, salienta o pesquisador. Além disso, procura desenvolver a prática do estudo individual e, principalmente, coletivo. “Só com as informações sendo compartilhadas por todos, poderemos avançar na luta. A mística que temos no MST deve ser vivenciada também no nosso jornal”, analisa. Em síntese, é um veículo de informação e formação dos trabalhadores rurais sem terra.

A publicação é a voz do Movimento. “Assim como temos a imprensa burguesa a serviço das elites - e, portanto, passando para a sociedade a ideologia delas -, temos o nosso jornal, que deve passar a nossa mensagem. E qual é ela? A luta pela Reforma Agrária e por transformações sociais para garantir um país justo, solidário e igualitário. Cabe ao JST divulgar essas ideias e fortalecer as lutas para que esses objetivos sejam alcançados”, brada Camilo. Ao longo de mais de 30 anos, a publicação acompanhou e registrou o crescimento do Movimento Sem Terra. Isso significa o a documentação de parte da história do Brasil e da classe trabalhadora.


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