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Boca de Rua: um espaço para cidadania

Por Mariana Brito Ceccon

Um grupo com cerca de 20 pessoas estava reunido embaixo das árvores do Parque Farroupilha, mais conhecido como Redenção, na região central de Porto Alegre. Eles aproveitavam a sombra originada pelas árvores. Era a única forma de amenizar o calor de 34°C que fazia naquela tarde na capital gaúcha. O grupo discutia a pauta que daria mote a próxima edição do jornal. O cenário foge dos padrões de uma redação de veículos da grande imprensa. Mas quem disse que é preciso seguir os padrões? O Boca de Rua, jornal produzido e vendido por pessoas em situação de rua, está aí para provar que é uma importante ferramenta na construção de um espaço público e da cidadania.

O jornal existe desde 2001 e recebe o apoio da ONG Alice (Agência Livre para Informação, Cidadania e Educação). A publicação é trimestral e conta com a colaboração de aproximadamente 30 moradores de rua. O jornal é editado pela jornalista Rosina Duarte. Ela explica que a publicação foi criada com o intuito de mostrar uma realidade que é ignorada pela grande mídia e, portanto, não é compreendida pela sociedade. 

Em vista disso, é possível afirmar que o Boca de Rua é um jornal alternativo. O doutor em comunicação Álvaro Benevenuto explica que mídia alternativa é aquela “atividade comunicacional que acontece fora dos ambientes tradicionais da produção midiática, que aborda temas não privilegiados pelos meios conhecidos”.

O jornal é concebido e feito na rua. Os moradores determinam as pautas, tiram as fotos, realizam as entrevistas e redigem a matéria. A publicação foi idealizada pelos integrantes, desde a criação do nome e do logotipo. Os dois sinais de igual que ficam nas extremidades do logo representam a luta dos moradores de rua por direitos iguais. Na letra “D” foi inserido um tridente de diabo, porque essa era a forma como os integrantes do jornal se enxergavam diante dos olhos da sociedade. E por fim, a boca, que dá o nome ao jornal, demonstra a necessidade de gritar que esse grupo tem.

A próxima edição do Boca de Rua será veiculada entre os meses de janeiro, fevereiro e março. A publicação terá como escopo a seguinte pergunta: “Que cidade queremos para 2015”? O objetivo é mostrar o ponto de vista dos moradores de rua sobre as mudanças que devem ser realizadas em Porto Alegre. É justamente esse o papel da mídia alternativa, transformar-se em um instrumento de difusão de mensagens específicas capazes de gerar transformação, conforme explica Benevenuto.

A jornalista Rosina comenta como foi escolhida essa pauta. “Todo final de ano são feitas essas reportagens que questionam as pessoas sobre o que elas querem que mude no próximo ano. O que acontece é que nunca perguntam para os moradores de rua o que eles querem para o ano que vem. Quando dirigem alguma pergunta ao morador de rua é para saber como ele foi para na rua”, disse. Com base nisso, é possível afirmar que o Boca de Rua assume uma postura contra hegemônica, tendo em vista que ele procura dar voz a uma minoria esquecida pela mídia tradicional.

Não são somente as pautas do jornal que fogem dos padrões impostos pela grande mídia. A forma de produção e redação das reportagens também é uma alternativa da forma de fazer jornalismo. A metodologia foi desenvolvida aos poucos, explica Rosina. “Percebemos que era possível fazer uma transcrição da parte oral para a escrita. O texto é feito de forma coletiva por eles. Depois de redigido, mostramos para eles como ficou a matéria e fazemos alterações, se necessário. É muito bonita a forma como isso acontece”, disse a jornalista.

Aos poucos, os moradores de rua aprenderam peculiaridades da prática jornalística. Elaboram o lead, definem quais perguntas devem ser feitas ao entrevistado, procuram trazer contrapontos para a matéria, de forma que não seja apreciado apenas um lado. Rosina destaca a capacidade de organização que o grupo tem. “Mais que um jornal, é uma lógica de como uma comunidade deve funcionar. Eles decidem tudo na conversa. Sempre procuram entrar em consenso. Nós não criamos regras, mas existe uma lógica subentendida de como as coisas devem ser”, conta.

O protagonismo do Boca de Rua está vinculado justamente a quem faz o jornal. Indo contra toda a lógica hegemônica existente no jornalismo da grande mídia. A equipe do Boca conta com um gravador, duas máquinas fotográficas – sendo que uma não está funcionando – e um fusca. Mas a grande riqueza desse jornal alternativo se encontra no material humano. São 30 pessoas em situação de rua que estão dispostas a ser a resistência. Se a imprensa tradicional não dá voz às minorias, o Boca de Rua faz.


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